Meus medos

Como eu relutei para começar este texto, às vezes eu queria escrever, às vezes tinha medo de colocar para fora os pensamentos que me assombram. Mas hoje, logo após a minha sessão de terapia, respirei fundo e tomei coragem para começar. Não sei se vou conseguir finalizar este texto hoje ou se vai demorar, vamos descobrir.

Antes da nossa viagem, resolvi fazer um check-up geral e, em um desses exames, descobri que tenho endometriose. “Ah, Pri, mas isso não é nada, muitas mulheres têm uma vida normal. Não entendo por que o drama.”

Primeiro, você não precisa entender, o drama é meu, e os medos que me assolam também são meus, no meu âmago mais profundo.

Sinto dores, existe a possibilidade de não poder ser mãe, e junto com isso vêm várias outras coisas que tive que escutar, por não ter sabido me defender a tempo, como: não ter capacidade para gerar um filho ou que devo ter problemas, já que não engravidei mesmo não tentando na época, mas tive que ouvir coisas mais bizarras do que estas que acabei de escrever.

Junto com o diagnóstico, 15 dias antes da minha viagem, carreguei dentro da minha mala o medo e várias inseguranças, pois é um assunto tão íntimo que você não quer compartilhar com ninguém. Com isso, você volta a colocar coisas dentro de uma caixa interna que você já não usava mais. E com isso, os medos voltam e te assombram durante o sono; seu inconsciente tem vida própria e faz você ter sonhos onde é dito que você não será mãe, que você perdeu a filha que estava esperando. Você acorda tão assustada porque o sonho foi tão real e assustador que tem medo de dormir e ter o mesmo sonho. A maneira de enfrentá-lo foi colocando para fora, tirando esse peso de dentro da minha cabeça e tentando mostrar que tenho o poder de não permitir que isso me assombre.

Não sou médica, não estudei sobre o assunto, sou completamente leiga, mas sei que há sim a possibilidade de não conseguir engravidar, e caso isso se concretize, não sei como vou lidar, mas não posso me preocupar com isso agora. Estou em outro país, onde não falo a língua e meu inglês não é lá essas coisas. Quero entender mais sobre essa doença para conseguir me libertar de todos esses fantasmas que me assombram.

Porque não quero mais relembrar de tantas falas invasivas e ofensivas, onde a pessoa se acha no direito de te invadir de forma tão pesada e achar que está tudo bem. Te olhar e falar que não entende o porquê ficou chateada ou tão descontrolada por ter escutado “fulana engravida e dá o filho pra você criar” tão absurdo ter que escutar isso, e saber que, para a pessoa, não é nada demais. Afinal, ela pode falar o que quer, é assim que ela se sente, poderosa.

Mas, pensando por outro lado, ela é tão vazia e superficial que é incapaz de entender. Hoje, pensando em tudo que escutei e passei, começo a enxergar o quão solitária essa pessoa deve ser. E não, não vou me permitir passar por situações como essas. Hoje, consigo enxergar o que me machuca, e não admito mais.

Como sempre, minha querida Dra. tinha razão. Como é bom escrever, como é bom colocar meus pensamentos para fora, na verdade, todo o meu medo era vontade de jogar para fora todo esse sentimento mesquinho de outra pessoa que nem sequer me pertencia.

Se puder ser mãe, serei muito grata e vou ser a melhor mãe que meu bebê poderia ter. Caso contrário, tenho certeza de que estou no caminho certo, buscando minha felicidade e minha leveza, sem amarras e sem deixar que o outro me vença pelos meus medos, medos que eu criei e não preciso.

E refletindo sobre o que escrevi, não li o texto, mas estou pensando em tudo que veio à tona. O medo não era de não poder ter filhos; o medo era das palavras dele se concretizarem, que eu não era capaz de gerar um filho. Mas pensando aqui, eu não sou culpada por isso, não é algo do meu controle, e como estou me sentindo muito melhor depois de tudo que escrevi até aqui.

Que libertador, que loucura que demorei tanto tempo para me sentir livre desse medo e dessas amarras.

Com amor,
Pri

Ps. esse texto foi escrito em março deste ano e resolvi publicá-lo depois de um bate bapo maravilhoso que tive com a Maira Bumachar pro Podcast Fora de Cena, Maira, mais uma vez, muito obrigada pela escuta!

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